
A ideia, com este texto, é tentar explicar, de um modo menos denso, uma possibilidade, um olhar fenomenológico existencial para as questões que os pacientes possam nos trazer em consultório.
Nemo era um peixinho-palhaço com uma nadadeira menor que a outra. O único embrião que sobreviveu de um ataque que ceifou a vida dos outros embriões e de Coral, sua mãe, Nemo era superprotegido por seu pai, Marlin,também sobrevivente desse ataque, e ensinou para Nemo que o mar era sinônimo de insegurança, sempre receoso pela vida do peixinho. Além do mais, Marlin havia prometido a Nemo, ainda embrião, que nunca deixaria que nada acontecesse com ele.
Quando Nemo começou a frequentar a escola, o professor o levou, junto aos colegas de classe, justamente para o local onde o ataque fatal a Coral e sua família tinha acontecido. Marlin, apavorado, na tentativa de tirar Nemo daquele lugar, se desentende com o filho. Nemo desobedece o pai e acaba capturado por um mergulhador.Marlin luta para reencontrar Nemo e Nemo também luta para voltar ao mar. E, aqui, pode-se olhar, sob a perspectiva fenomenológica existencial, Marlin enquanto ser, lançado no mundo.
No aspecto da temporalidade - uma das categorias usadas na fenomenologia, Marlin vivia, psicologicamente, preso a seu passado. Nemo já era um peixinho crescidinho, capaz de fazer várias coisas sozinho, mas, Marlin parece não ter se dado conta disso. Marlin vivia seu tempo presente, sua atualidade e seu espaço (outra categoria fenomenológica) através do medo e da insegurança.
O medo, aprendido naquele ataque que destruiu sua família, impediu Marlin de projetar-se no futuro. Sem um projeto autêntico de vida, sem projetos futuros, Marlin vivia apenas o que acontecia “aqui e agora”, já que, a qualquer momento, tudo que existe poderá não existir mais, em um segundo. Parece que o objetivo era segurar o que se vivia no presente, já que o futuro é incerto. O problema disso é que o presente é apenas um instante efêmero, que, só de piscar, já virou passado.
Entretanto, quando ele, pelo temor, abriu mão de um projeto de vida futura, ele também abriu mão do desenvolvimento da própria vida. Paradoxalmente, por tanto medo de perder o Nemo, Marlin o afastou de si e o perdeu, ainda que temporariamente. Para recuperar a presença de Nemo em sua vida, Marlin teve que se jogar onde ele mais temia: o mar aberto. Marlin teve que se haver com seu tempo passado e ressignificá-lo. Talvez, ele teve que transformar parte do seu medo em coragem, e parte de sua insegurança em audácia. Mas, principalmente, Marlin teve que vislumbrar um objetivo futuro para a vida voltar a acontecer: recuperar seu filho em sua corporeidade, em sua presença física.
Já no fim do desenho, Nemo se encontra desacordado, no fundo do mar, após um esforço intenso em uma tarefa de salvamento de outros peixes, presos a uma rede, Marlin demonstra, de fato, que ressignificou o seu passado, dizendo a Nemo: ”papai está aqui”. Nesse momento, Marlin não repetiu aquela frase de que “nunca deixaria nada acontecer com seu filho".
Existencialmente, somos seres finitos, temos ou teremos um fim. E, negar essa condição humana, leva, simultaneamente, a negação de se realizar um projeto de vida autêntico e que faça sentido para cada indivíduo, cada sujeito. É como se negar a possibilidade de fracassar, trouxesse, junto, a impossibilidade de vencer.